Imagem de satélite da Estrutura Richat (falsa cor)

O Enigma do Deserto: O Olho do Saara é a Perdida Atlântida?

No vasto deserto da Mauritânia, visível claramente apenas do espaço, existe uma formação geológica que intriga cientistas e caçadores de mitos há décadas. Chamada oficialmente de Estrutura de Richat, mas conhecida popularmente como o "Olho do Saara", esta formação de 40 a 50 km de diâmetro tornou-se recentemente o centro de uma teoria fascinante: seria ela os restos da lendária cidade de Atlântida?

O que diz a Ciência: Um Domo Geológico

Antes de entrarmos no mito, precisamos entender a geologia. Durante muito tempo, pensou-se que o Olho fosse uma cratera de impacto de um meteorito. No entanto, estudos mais recentes e aprofundados descartaram essa hipótese devido à falta de rocha derretida (melt rock) que normalmente indica um impacto violento.

O consenso científico atual é que a Estrutura de Richat é um domo anticlinal profundamente erodido. Imagine uma "bolha" de magma que empurrou as camadas de rocha para cima, mas nunca chegou a romper a superfície como um vulcão. Com o passar de milhões de anos, o vento e a água erodiram o topo dessa bolha, expondo camadas de rochas sedimentares e ígneas em anéis concêntricos. As rochas no centro são as mais antigas (Proterozoico), enquanto as das bordas são mais recentes.

Corte transversal da estrutura. A cor magenta representa a intrusão vulcânica, enquanto as cores roxa, verde e cinza representam as camadas sedimentares.

A Teoria de Atlântida: As Coincidências

Por que tantas pessoas acreditam que este local geológico é Atlântida? A teoria ganhou força devido a semelhanças visuais e descritivas com os textos do filósofo grego Platão (Timeu e Crítias), a única fonte original sobre a cidade perdida.

Os principais argumentos dos teóricos incluem:

  • Formato Concêntrico: Platão descreveu Atlântida como composta por anéis alternados de terra e água. A estrutura erodida de Richat lembra visualmente esse padrão.
  • Dimensões: As medidas mencionadas por Platão (cerca de 127 estádios para o diâmetro da cidade) são surpreendentemente próximas do diâmetro da estrutura geológica.
  • Abertura para o Sul: Platão mencionou uma saída para o mar ao sul. O Olho do Saara possui uma falha geológica nessa direção que, na teoria, poderia ter sido um canal.
  • Montanhas ao Norte: A descrição grega fala de montanhas ao norte da cidade e grandes planícies ao sul, o que coincide geograficamente com a topografia da região da Mauritânia.

O Choque de Realidade

Apesar das coincidências sedutoras, a geologia impõe barreiras difíceis de ignorar para a teoria de Atlântida:

1.    A Idade: A formação da Estrutura de Richat começou há cerca de 100 milhões de anos (período Cretáceo), muito antes do surgimento da humanidade, quanto mais de uma civilização avançada descrita por Platão (que teria existido por volta de 9.600 a.C.).

2.    Altitude: O Olho está atualmente a cerca de 400 metros acima do nível do mar. Mesmo considerando mudanças climáticas drásticas, não há evidências de que o oceano tenha coberto essa área específica nos últimos milhares de anos de forma a sustentar uma cidade portuária.

3.    Falta de Artefatos: Até o momento, nenhuma escavação ou análise de satélite revelou estruturas artificiais, alvenaria, ferramentas ou restos humanos que indiquem uma cidade densamente povoada dentro dos anéis da estrutura.

Conclusão

O Olho do Saara é, sem dúvida, uma das maravilhas naturais mais espetaculares da Terra. Embora a ideia de que seja o berço de uma civilização perdida seja um excelente combustível para a imaginação e a ficção, as evidências científicas apontam para um processo natural de erosão magmática que levou milhões de anos para ser esculpido.

Seja Atlântida ou não, a Estrutura de Richat permanece como um lembrete da complexidade e beleza da história geológica do nosso planeta.


Referências e Leitura Recomendada

1.    NASA Earth Observatory. (2018). Richat Structure, Mauritania. Disponível em: earthobservatory.nasa.gov. (Fonte para dados geológicos e imagens de satélite).

2.    Matton, G., & Jébrak, M. (2014). The "Eye of Africa" (Richat Dome, Mauritania): An isolated Cretaceous alkaline-hydrothermal complex. Journal of African Earth Sciences. (Estudo geológico detalhado sobre a formação do domo).

3.    Platão. Timeu e Crítias. (Fontes primárias para a descrição original do mito de Atlântida).

4.    Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS). Earthshots: Satellite Images of Environmental Change